PEQUENA HISTÓRIA DA REPÚBLICA DO EQUADOR
O autor
Ensaísta, historiador, pensador e poeta, Eduardo Mora-Anda
divide o seu tempo entre a diplomacia, a cátedra e os livros.
É autor de Palabras Personales (Madrid 1991), Viaje Esencial
(Quito,1993), Los Salmos del Mar (Buenos Aires, 1999),
Hablarán los Días (CCE, Loja,2005) e Historia de los Ideales
(diversas edições, a primeira em Quito, 2001, sob o título
Los Valores y los Siglos; tradução brasileira – História dos
Ideais – publicada em 2006 por esta editora). Residiu no
Peru, Chile, Estados Unidos, Guatemala, Espanha e
Argentina, vivendo
atualmente no Brasil,
como embaixador de
seu país. Realizou
estudos em sua pátria,
nos Estados Unidos e
na Itália e visitou a
Suíça numerosas
vezes. Durante três
anos dirigiu o Plano de
Desenvolvimento Binacional Equatoriano-Peruano. Integra
o Grupo Cultural América, de Quito, e é membro
correspondente da Academia Argentina de História.
1 – O PAÍS DA METADE DO MUNDO
Entre Colômbia e Peru e o Oceano Pacífico
localiza-se um país pequeno mas exuberante e
variado: o Equador. Em pouco mais de 256. 370
km2 o Equador tem todos os climas e todas as
paisagens: uma costa tropical, a fria serra andina,
os vulcões e a neve, a misteriosa selva Amazônica
e as ilhas Encantadas ou Galápagos.
A costa tropical exibe a magia de amplas
praias de areias quentes, rodeadas de palmeiras.
Praias que banha um oceano Pacífico que a essa
altura já está temperado pelas correntes marinhas.
Em algumas partes a margem é coberta por escuros
manguezais. Em outras foram construídos grandes
tanques para a criação de camarões. No interior
dessa região há exuberantes distritos onde crescem
a fruta-pão (chamada “árvore do pão”, pela
generosidade dos seus frutos), os floridos guaiacos,
as imensas plantações de bananas, os barrigudos
ceibos, os cacaueiros que produzem o famoso cacau
aromático, para fazer o mais nobre dos chocolates,
os cultivos de cana-de-açúcar e do café de Manabí
e, a meio caminho da serra, os aromáticos cafezais
de Zaruma. Trata-se, como disse Gabriela Mistral,
de um trópico bom e fecundo, onde vive um homem
mestiço, alegre, decidido, sensual e ardente,
personagem de mudanças rápidas e digno, amigo
EDUARDO MORA-ANDA
eterno de seus amigos e apaixonado amante de seus
amores.
Não é preciso viajar muito para chegar à serra
equatoriana. Aqui a cordilheira dos Andes forma
uma deslumbrante cadeia de picos nevados e
vulcões, em meio dos quais existem vales verdes
temperados e extensas regiões de clima mais frio.
Como fruto da longa história do país, as cidades
das serras combinam o andino com o barroco, os
elementos da cultura espanhola com os da indígena
andina.
Para o leste as montanhas descem
vertiginosamente e logo se pode chegar, junto com
rios ligeiros que vão constituir o Marañón/
Amazonas, aos bosques e às planícies da região
amazônica, região quente e úmida, onde cresce
grande variedade de árvores e plantas medicinais e
onde estão também as importantes jazidas de
petróleo que desde 1960 marcam profundamente a
economia do Equador.
A essas três regiões temos que juntar também
as ilhas Galápagos, a 600 milhas da costa, em pleno
Pacífico. Nessas ilhas vulcânicas a paisagem é única
e está bem conservada, e ali se encontra uma série
de espécies animais e vegetais que já não existem
noutras partes do Planeta e que, por sua adaptação
às diferentes circunstâncias, permitiram ao cientista
inglês Charles Darwin desenvolver sua teoria da
evolução das espécies.
O Equador tem atualmente 21 províncias
divididas em regiões. As principais cidades são
Quito, a capital, e Guayaquil, o principal porto e
centro comercial do país, Cuenca, centro industrial
e turístico, Loja, Machala, Santo Domingo,
Ambato, El Puyo, Macas, entre outras.
2 – Sua História
“...la historia toda es una
serie no acabada nunca de
rectificaciones y justicias...”
Azorín
I – A história antiga
Para essas terras equatoriais, em tempos
remotos, viajaram pessoas desconhecidas,
procedentes da Ásia e da Oceania. Algumas de raça
bronzeadas e outras de raça amarela. A vida nos
trópicos e a vida na costa americana e nas alturas
dos Andes foram mudando seus habitantes pouco a
pouco. Logo desenvolveram-se culturas mais
adaptadas a seu novo território.
Na costa, uma migração possivelmente
japonesa criou a chamada cultura Valdívia, uma
das mais antigas das Américas, cinco mil anos atrás,
uma cultura que nos deixou as marcas de suas belas
vasilhas de cerâmica e pequenas figuras de deusas
nuas, que nos revelam um povo matriarcal, sensual
e alegre. Mas também foram identificadas outras
culturas muito antigas, que deixaram muitos
utensílios e objetos domésticos e de culto: Jama
Coaque, Guangala, La Tolita, Machalilla, entre
outras...
Mais tarde na costa equatoriana viveram as
tribos dos mantas, cayapas, huancavilcas e punáes.
Nas alturas da serra houve uma migração
importante: a dos caras, que representavam a etnia
principal nas zonas vizinhas da atual Quito. Sua
presença deu origem à lenda da existência do Reino
de Quito. De qualquer forma, quando chegaram os
Incas ao Equador, no século XV, já governavam
grande parte da zona andina os shyris, os chefes
tutelares dos caras. Outras comunidades também
viviam nas cercanias: ao norte os imbayas e
quillassingas, no centro os panzaleos e os
puruhuaes, ao sul os cañaris e os paltas. Já para o
oriente uma série de tribos: os quijos, secoyas,
shuaras, ashuares, huaronis, quíchuas amazônicos
e outros. Recentemente, no sul oriental, na província
de Zamora, foram encontrados restos de uma cultura
muito antiga, quem sabe contemporânea ou anterior
à chimú.
A célula fundamental de todas essas tribos era
o ayllu, a reunião de famílias unidas por uma
comunidade de sangue e de costumes. Os ayllus formavam tribos de pequeno reinos, às vezes aliados
entre si, outras vezes em guerra uns com os outros.
Os índios do Equador tinham diferentes
deidades: veneravam a mãe terra, certos lugares
(huacas) e animais, determinados objetos que
supunham com alma e montanhas. Por volta de
1460, pelo sul, os incas invadiram a região e após
sucessivas batalhas incorporaram Quito a seu
império, o chamado Tahuantinsuyo. Primeiro
conquistou o sul do país o Inca Túpac Yuapanqui.
Logo avançou para o norte seu filho e sucessor
Huayna Cápac, possivelmente nascido em
Tomebamba, a atual cidade de Cuenca, e ocupou
Quito e as províncias nortistas até Pasto.
A sociedade inca era dividida em castas e
muito hieraquizada. Sua economia se baseava na
agricultura e, sobretudo, no milho, na batata e na
quinoa. A terra se repartia em três porções: uma
para o culto do Sol e dos sacerdotes, outra para o
Inca (rei) e para os anos de má colheita, e uma
terceira para o povo (coletiva). O meio de transporte
era o lhama. Não se conhecia a roda. Tinham um
sistema de correios (os chasquis) e um método de
contabilidade decimal (os quipus). Os incas não
tiveram escrita e a memória de seus amanautas
(sábios) transmitia as tradições.
Antes de morrer, Huayna Cápac dividiu seu
império (que ia desde Pasto até o rio Maule, no
Chile, e Mendoza, na atual Argentina) entre dois
de seus filhos. No norte reinaria Atahualpa, filho
de uma princesa quitenha; ao sul, Huáscar, filho da
principal esposa do Inca. Não demorou muito a
guerra fratricida explodiu, triunfando Atahualpa.
O império ficou debilitado, e disso aproveitaramse
os homens brancos e barbudos, os espanhóis,
que por essa época chegavam às costas equatorianas.
II – A Conquista Espanhola
As costas equatorianas foram descobertas pelo
piloto Bartolomeu Ruiz. No ano de 1531 Francisco
Pizarro e um pequeno grupo de espanhóis
desembarcaram na ilha de Puná e em seguida em
Tumbes e avançaram até o interior; em Cajamarca,
com logros, capturaram o Inca Atahualpa. Depois,
apesar da resistência do general Rumiñahui e sua
gente, os espanhóis apoderaram-se do império
incaico, que então, calcula-se, tinha 15 milhões de
habitantes. Os espanhóis tinham a vantagem das
armas de fogo e dos cavalos, que deixaram os índios
espantados, e além disso as enfermidades que
trouxeram consigo dizimaram a população local.
Também ajudou na conquista a colaboração de
algumas comunidade que haviam sido maltratadas
por Atahualpa ou se sentiam oprimidas pelos incas.
Além disso a sociedade inca era tão verticalizada,
hierarquizada, que o povo estava acostumado a se
submeter: aniquilada a classe alta (a guerra entre
Huáscar e Atahualpa liquidou muitos nobres e
comandantes, e este e seus generais morreram), não
ficou muita gente com capacidade política ou
militar para reagir (só um grupo tardio, encabeçado
por Túpac Amaru, se rebelou no Alto Peru contra a
dominação espanhola, mas fracassou em seu intento
de libertação). Tampouco faltaram os matrimônios
mistos: vários conquistadores se casaram ou se
uniram com princesas índias, o próprio Pizarro
tomou por esposa uma irmã de Atahualpa, e
inumeráveis espanhóis tiveram relações com as
indígenas. A mestiçagem, característica dos países
andinos, havia começado.
III – A vida na época colonial
Os conquistadores espanhóis fundaram
numerosas cidades que logo floresceram. Assim
nasceram Quito (1534), Loja, Guayaquil,
Portoviejo, Cuenca, Zaruma, Zamora, Valladolid,
Ibarra, entre outras. Outras cresceram a partir de
assentamentos indígenas. A extração do ouro deu
prosperidade a cidades como Loja e Zaruma, que
depois entraram em decadência. A agricultura foi
desenvolvida a partir de cereais vindos da Europa
(aveia, trigo, cevada) e continuou o cultivo de
frutos e legumes nativos da América, tais como a
batata, a quinoa, o milho e o tomate. As frutas
européias (maçãs, peras, laranjas, limões) se
juntaram às americanas (melões, pinhas, abacates,
frutas-de-conde). A comida cotidiana combinou os
produtos europeus com os americanos.
As terras eram propriedade dos espanhóis e
brancos crioulos (nativos), que as fizeram produzir
com base no trabalho forçado dos índios (as
encomiendas). Essa instituição foi criada para a
proteção e evangelização dos índios, mas os
conquistadores as deformaram a seu favor. Foi
suprimida em 1725.
As minas foram exploradas pelo sistema de
recrutamento obrigatório denominado mitas
(tomado dos incas), que produziu inumeráveis
mortes. As manufaturas e pisões produziam têxteis
que, pelo século XVIII, não puderam competir com
a produção industrial inglesa e desapareceram.
Os clérigos e frades católicos, por sua vez,
evangelizaram os índios dos novos territórios e
fundaram uma série de igrejas, conventos, colégios
e missões. A evangelização, entretanto, foi muito
imperfeita, pois, mais que cristianização, resultou
numa superposição e mistura de práticas e crenças
católicas com outras próprias dos índios.
É de ressaltar o papel de frei Jodoco Ricke,
franciscano, primo do Imperador Carlos V, que
levou a Quito o trigo, os gerânios, os gorriones
(pássaros semelhantes aos pardais) e instaurou a
primeira escola de artes, da qual nasceria a fecunda
Escola Quitenha de pintura e escultura, na qual se
destacariam, entre muitos índios, crioulos e
mestiços, os escultores Caspicara, Pampipe, Robles
e Olmos, e pintores como Miguel de Santiago,
Samaniego, Miguel de Gorívar e o padre Bedón.
Logo a vida nas cidades equatorianas exigiu
que o Rei convertesse Quito numa Real Audiência
e num Bispado. Por outra parte, o afã de conquistar,
fundar novas vilas e evangelizar deu origem a uma
série de “governanças” e missões, em particular à
Governança de Yaguarzongo, confiada a don Juan
de Salinas Loyola, fundador de seis cidades, e às
mais importantes missões jesuíticas da Amazônia,
um de cujos membros, o padre Samuel Fritz,
chegou a fundar cerca de quarenta povoados.
Especial relevância tem a expedição
organizada por Gonzalo Pizarro para conquistar o
assim chamado País da Canela (a atual Amazônia),
expedição a que se uniu Francisco Orellana e que
esteve integrada por mais de cem espanhóis e
milhares de indígenas. A expedição saiu de Quito,
cruzou a cordilheira dos Andes e com muitas
dificuldades e trabalhos avançou pela selva. No
caminho muitos morreram por causa das doenças,
inclemência do clima e ataques de índios. A situação
dos expedicionários tornou-se tão crítica que uns
seguiram por terra e outros construíram um barco
pequeno, comandado por Francisco Orellana, com
o qual este seguiu pelos rios e descobriu o enorme
rio Amazonas, batizado assim por causa da lenda
de que naquela região existia uma tribo de mulheres
guerreiras, as amazonas. Orellana não voltou ou
não pôde voltar para resgatar seus companheiros
de peripécias, mas alcançou o Atlântico e seguiu
para a Espanha, aonde chegou a salvo. Quanto aos
poucos sobreviventes do outro grupo, com Gonzalo
Pizarro no comando, chegaram a Quito, famintos,
doentes e maltrapilhos. A epopéia de Orellana e
Pizarro, contada pelo padre Carvajal, seu capelão e
cronista, gerou uma importante obra de literatura.
A vida nas cidades equatorianas da colônia
(aproximadamente 300 anos) era uma existência
conventual, bem regulada pelas festas e atividades
religiosas e só alterada por algum escândalo local,
a chegada de correspondência da Espanha e as
touradas, as festas e os éditos. Nada obstante, na
época colonial foram registradas duas rebeliões: a
dos estancos, em protesto por causa da carga de
impostos que mantinham os monopólios reais, e a
dos alcabalas, que se iniciou por causa similares
mas teve um significado mais profundo, pois foi
uma verdadeira rebelião dos bairros populares de
Quito, encabeçada por um mestiço chamado
Moreno Bellido. Desde essa época, o povo de Quito
sempre deu mostras de uma capacidade de reação e
rebeldia política que eclode espontaneamente, em
numerosas crises e diante dos maus governos que o
país tem sofrido.
Na época colonial se destacam na literatura o
padre Juan Bautista Aguirre (1725-1786), notável
poeta culterano, que compôs elegias, poesias
humorísticas e estudos filosóficos, e o bispo Gaspar
de Villarroel (1587-1885). No campo das ciências
e das explorações figura o cientista Pedro Vicente
Maldonado (séc. XVII) e na história o padre Juan
de Velasco (1727-1792), primeiro historiador do
país. Sustentou a teoria (ou lenda) da existência do
Reino de Quito, discutida depois por outros
estudiosos. Os principais livros de Juan de Velasco
são Historia Moderna del Reino de Quito y Crónica
de la Provincia de la Compañía de Jesús e Colección
de Poesías Varias, Hecha por un Ocioso en la
Ciudad de Faenza.
Mas a principal figura da época colonial do
Equador foi Eugenio de Santa Cruz y Espejo (17471795).
Homem típico da Ilustração, foi o primeiro
jornalista de Quito, um médico que –antes de
Pasteur– concebeu a idéia dos micróbios, um
escritor prolífico e precursor da independência das
colônias hispânicas. Organizou a Sociedade
Patriótica Amigos do País. No dia 5 de janeiro de
1792 lançou a primeira publicação do jornal
Primicias de la Cultura de Quito. Escreveu diversos
livros sobre temas políticos, sociais e médicos: El
Nuevo Luciano de Quito, La Ciencia Blancardina,
Reflexiones sobre la Viruela, Marco Porcio Catón,
etc. Em 1785 escreve a sátira intitulada El Retrato
de Golilla. Apesar de sua origem pobre, humilde e
mestiça, estudou e se superou até ser o homem mais
culto do país. Acusado de conspirar pelas
autoridades espanholas, foi preso e morreu na
prisão. Eugenio Espejo é uma das mais complexas
personalidades da história do Equador e das
Américas.
Por fim há que mencionar a figura de José
Mejía Lequerica (1775-1813), orador fogoso e
notável patriota, que estudou medicina e teologia e
representou o Vice-Reinado de Santa Fé nas Cortes
de Cádiz (1810), onde se destacou por suas
brilhantes exposições. Suas intervenções estão
compiladas nos Discursos de Don José Mejía en las
Cortes Españolas de 1810-13. Mejía propôs a
igualdade de direitos entre os espanhóis da península
Ibérica e os “espanhóis da América”.
Mais tarde a expulsão dos jesuítas, decretada
pelo Rei Carlos III em 1716, causou grave dano ao
país: foram fechadas as universidades, colégios e
escolas, a cultura declinou, foram paralisadas as
missões da Amazônia, decaíram muitas igrejas,
perderam-se bibliotecas inteiras, ou foram
dispersadas e repartidas. Muitos povoados foram
abandonados, com o que a presença de Quito na
Amazônia diminuiu. Enfim, a educação sofreu
notável retrocesso.
Em 1735 o país foi visitado por uma missão
científica francesa (a Missão Geodésica),
encabeçada por Carlos Marie de La Condamine e
enviada pela Academia de Ciências de Paris.
Chegaram para medir um arco do planeta Terra e
comprovar sua forma e dimensões, mas na verdade
fizeram um trabalho muito mais amplo e uma
investigação geográfica e biológica muito grande.
Eles e os cientistas espanhóis que os acompanhavam
(Jorge Juan e Antonio de Ulloa) enviaram
informações à Europa em que se começou a falar
das “terras do Equador” – pela linha geográfica que
as cruzava. Assim se começou a deixar de lado o
nome histórico de Presidência de Quito e se
estabeleceu o costume de falar do Equador.
IV – A independência e a Grã Colômbia
A influência das novas idéias políticas que
chegavam da França (a Ilustração e o
Enciclopedismo), a independência dos Estados
Unidos (1776) e a Revolução Francesa (1789),
assim como a decadência do Império Espanhol,
deram origem na América hispânica a fortes
correntes políticas que favoreceriam a separação
das colônias. Somava-se a isso a competição entre
espanhóis e crioulos (os americanos) pelos cargos
públicos, o descontentamento popular com o regime
e o monopólio comercial exercido pela Espanha,
que impedia o desenvolvimento das colônias.
Aproveitando a invasão da Espanha por
Napoleão, em 10 de agosto de 1809, constituiu-se
uma Junta de Governo, encabeçada por Juan Pío
Montúfar, a qual destituiu as autoridades espanholas.
A rebelião foi sufocada por tropas reais vindas do
sul, e em 2 de agosto do ano seguinte foram mortos
os membros da Junta, exceto o doutor Antonio Ante,
que foi enviado para Ceuta, na África. Esse fato
lamentável eliminou a elite política quitenha e
determinou que no começo da República
equatoriana interviessem políticos nascidos em
outros países, como o general Juan José Flores.
Entre 1809 e 1812 houve um período de lutas
entre independentistas e espanhóis. Chegaram
aqueles a editar uma Constituição Quitenha, datada
de 1812.
Posteriormente, em 9 de outubro de 1920, um
movimento independentista, encabeçado pelo poeta
José Joaquín Olmedo, proclamou a independência
de Guayaquil e o regime republicano. Data
importante não só para Guayaquil, senão também
para outras cidade que fizeram o mesmo. O novo
governo de Guayaquil Independente iniciou então
ações militares para libertar a Serra equatoriana.
Logo, as tropas americanas enviadas pelo general
Simón Bolívar, que já havia libertado da Espanha
a Venezuela e Santa Fé (a atual Colômbia),
chegaram a Guayaquil e por fim uma força composta
por equatorianos, argentinos, colombianos,
venezuelanos, comandadas pelo marechal Antonio
José de Sucre, derrotou o general espanhol Aymerich
na batalha de Pichincha, diante da própria cidade
de Quito (24 de maio de 1822). Esses últimos
sucessos fizeram que o Equador fosse incorporado
à Grã Colômbia que organizava Bolívar, e assim
viveu até o ano de 1830.
No terreno da cultura, com o advento da
independência, o cultureranismo da Colônia deu
lugar ao Neoclacissismo e apareceu a poesia épica
e revolucionária. A principal figura desse período
foi o próprio José Joaquín Olmedo (1780-1847),
um dos mais importantes escritores hispanoamericanos
do século XIX. Foi também um grande
orador. Deputado nas Cortes de Cádiz, deputado
por Puno no Congresso do Peru, chefe político de
Guayaquil e candidato à Presidência do Equador.
Sua principal obra é Canto a la Victoria de Junín,
dedicado a Bolívar.
V – A República
O regime grã-colombiano não melhorou as
condições de vida da população. A guerra da
independência havia empobrecido muitas
províncias. As distâncias entre cidades
equatorianas e Bogotá e a falta de meios de
transporte impediamo estabelecimento de uma boa
administração pública. Logo o povo se viu
acossado pelas exigências de manter um enorme
exército libertador, e foram contínuas as disputas
e protestos. (Ao contrário do que fez Washington
nos Estados Unidos, nos países andinos cometeuse
o erro de não licenciar prontamente a maior
parte das tropas que atuaram na independência.)
A isso juntou-se o assassinato do marechal Antonio
José de Sucre, eventual sucessor de Bolívar. Até o
final da década surgiram fortes movimentos de
desintegração da Grã Colômbia, a Venezuela se
separou, Bolívar havia deixado o comando e em
maio de 1830 se constituiu o Equador como
República (que assumiu o nome dado pelos
geógrafos franceses em lugar da denominação
histórica do país). A primeira Assembléia
Constituinte designou o General Juan José Flores
como primeiro presidente.
Flores, Rocafuerte e a Revolução de Março
O General Flores era um
astuto caudilho militar sem
maior preparação para a
administração pública. Seu
governo foi ineficiente,
autoritário e abusivo. Teve além
disso que enfrentar várias
rebeliões militares. As recíprocas
intervenções dos governos de
Colômbia e Equador na política
partidária mútua produziram
uma guerra que levou à perda
das províncias de Pasto e Popayán. Logo apareceram
grupos de oposição (como o jornal El Quiteño
Libre) e várias revoltas explodiram. Flores negociou
um acordo que levou ao poder o patriota de
Guayaquil Vicente Rocafuerte, notável intelectual
que havia representado o México e a Colômbia em
Londres. Rocafuerte foi um presidente honesto e
muito rigoroso, que impulsionou a educação. Seu
governo constituiu a página mais brilhante desse
período, em que o país oscilou entre o militarismo
e as influências estrangeiras, por um lado, e o afã
civilista e nacionalista, pelo outro. Depois Flores
voltou ao poder e propiciou uma constituição que
lhe dava poderes totais (a chamada Carta da
Escravidão). O descontentamento cresceu, as
conspirações se multiplicavam e finalmente Flores
foi derrubado pela revolução nacionalista de março
de 1845.
Os Tempos de Urbina
A revolução de março eliminou a presença
de estrangeiros nas forças armadas, mudou a
bandeira e ditou nova Constituição. O governo
do presidente Ramón Roca foi tolerante e
tranqüilo. Sucederam-se outros governos sem
maior significado, e entre 1852 e 1859 dominou
a política equatoriana a figura do general José
María Urbina, que se revezou na presidência com
seu amigo o general Robles. Não é uma época de
grandes realizações, com exceção de uma: em
1851 foi decretada a libertação dos escravos (que
não eram muitos no Equador, pois grande parte
da população das províncias de raça negra de
Esmeraldas nunca sofreu a escravidão: originavase
de sobreviventes de um naufrágio, que se
radicaram alí e viveram livres). Por outro lado,
como Urbina era anticlerical, expulsou novamente
os jesuítas, que haviam retornado fazia apenas
dois anos.
No final da gestão de Robles, o governo
equatoriano quis pagar sua dívida com a Inglaterra,
a qual se arrastava desde a independência. A idéia
era pagá-la entregando terras da Amazônia, que
seriam utilizadas por colonos ingleses. O trato não
se pôde concluir por causa dos protestos e gestões
do Peru, que reclamava parte desses territórios, e
por ataques míopes da oposição. Houve grande
agitação social e os conservadores e outros setores
iniciaram uma série de revoltas que terminaram
com a saída de Robles e a proclamação do governo
do general Franco em Guayaquil e de um triunvirato
em Quito. Logo também a província de Loja, que
então abarcava o sul do Equador, proclamou um
Governo Federal, presidido por Manuel Carrión
Pinzano. Resultou esse numa experiência muito
interessante, pois trouxe progresso e prosperidade
à região: organizou uma Corte, criou o Bispado,
fomentou a educação, baixou os impostos para
combater o contrabando. Logo houve
enfrentamentos com as forças de Quito e de
Guayaquil, e o marechal Castilla, Presidente do
Peru, bloqueou o porto de Guayaquil e obrigou
Franco a firmar um tratado que reduzia à metade o
território equatoriano. O tratado foi repudiado pelos
demais setores do país e ainda o próprio Peru o
desconsiderou, posteriormente. Gabriel García
Moreno, presidente do triunvirato de Quito,
conseguiu então reunificar o país: derrotou Franco,
provocou a renúncia de outro governo que vinha
funcionando em Cuenca e negociou a
reincorporação de Loja. Como resultado de tudo
isso García Moreno assumiu como presidente e foi
convocada a convenção de 1861, em que o deputado
de Loja Toribio Mora propugnou o federalismo,
moção que foi derrotada pelo voto dos delegados
do centro e do norte do país. O que Toribio Mora
conseguiu foi a aprovação do voto universal dos
maiores de vinte e um anos de idade, pois
anteriormente, desde a época de Flores, para votar
se necessitava ter um certa renda e possuir
propriedades ou imóveis, e para ser Presidente se
requeria uma renda maior.
O Período Garciano
Em 1860 sobe ao poder
Gabriel García Moreno (18211875),
um dos mais importantes
políticos equatorianos e latinoamericanos
do século XIX,
famoso tanto por seu
temperamento severo e
repressivo como por seu
catolicismo extremado e seu
formidável trabalho como
Presidente do Equador: criou
escolas e colégios, construiu
G. Garcia Moreno
(1821-1875)
estradas e pontes, trouxe várias ordens religiosas
para educar os jovens e crianças, fez que outra vez
regressassem os jesuítas e aproveitou-se das
perseguições da Kulturkampf de Bismarck na
Alemanha para trazer para o Equador famosos
cientistas e fundar com eles a Escola Politécnica e
o Observatório Astronômico. Também iniciou a
ferrovia que seria terminada pelo Presidente Alfaro.
García Moreno reprimiu duramente a oposição e
foi muito combatido pelos liberais e por setores
mais moderados, sendo finalmente assassinado por
um grupo de conspiradores.
Opositor tenaz de García Moreno foi o
notável escritor Juan Montalvo, autor de
numerosos ensaios filosóficos e políticos (Los Siete
Tratados, Capítulos que se le Olvidaron a
Cervantes). Destacaram-se também nessa época
Miguel Riofrío, autor de La Emancipada, talvez
o primeiro romance equatoriano, e o romancista
Juan León Mera, autor de Cumandá, obra
romântica notável por suas descrições de
paisagens.
A Época de Veintimilla
A García Moreno sucedeu o Presidente Antonio
Borrero y Cortázar, homem probo e moderado, mas
o seu governo logo foi derrubado pelo general
Ignácio Veintimilla, que dominou o país durante
oito anos (1876-1883). A administração desse
ditador foi medíocre e só restou dela o Teatro Sucre,
de estilo neoclássico, em Quito. Nessa época
aconteceram dois crimes horrendos: o bispo José
Ignácio Ordóñez foi envenenado e o líder
conservador don Vicente Piedrahita morreu
assassinado. Veintimilla foi derrotado em uma luta
de vários meses levada a cabo por forças
combinadas de progressistas, liberais e
conservadores. Foi o que se chamou, e com razão,
“A Restauração” da República.
A Era dos Progressistas
Entre 1883 e 1895, sucederam-se vários
governos progressistas (católicos liberais). Há que
distinguir aqui entre o governo repressivo de
Plácido Caamaño (que decretou numerosos
fuzilamentos) e o governo ilustre de Antonio Flores
Jijón. É uma época de certo progresso material e
econômico, graças à exportação do cacau, mas os
liberais combatem incessantemente o governo com
guerrilhas e fazem um escândalo do uso que se dá
à bandeira nacional num barco de guerra, para
favorecer o Chile; por fim conseguem depor o
terceiro presidente progressista, o ilustre poeta Luis
Cordeiro, e se instaura o regime liberal (revolução
de 1895).
Nessa época é necessário mencionar o
trabalho do educador lassalista Francisco Febres-
Cordero (o Irmão Miguel), que também escreveu
poesias e deixou claríssimos textos para o ensino
primário e secundário, incluindo uma excelente
Gramática de la Lengua Castellana. Membro da
Real Academia da Língua, foi condecorado pela
França e declarado santo pelo Papa João Paulo II.
Na literatura também se destaca o poeta Julio
Zaldumbide e o próprio Presidente Luis Cordero,
que é o primeiro presidente que fala e escreve tanto
em espanhol quanto em quéchua. No campo das
artes há uma geração importante integrada pelos
pintores Luis Cadena, Joaquim Pinto, Antonio
Sales, Luis A. Martínez e Rafael Troya.
A Revolução Liberal
No poder os liberais, encabeçados por Eloy
Alfaro e depois por Leonidas Plaza (contra o qual
mais tarde se rebelou Alfaro), instauram a separação
entre igreja e estado, expropriam as terras que
possuía o Clero, e estabelecem a liberdade de culto,
o casamento civil e o divórcio.
Alfaro funda uma série de instituições
educativas de acentuado caráter laico e mesmo antireligioso:
colégios, escolas, institutos para
Eloy Alfaro
(1842-1912)
mulheres, o colégio militar.
Suprime-se o ensinamento da
religião católica nos colégios,
mas não se preenche a lacuna
com a ética e religiões
comparadas, ou aulas optativas
de religião, senão com vagas
noções de civismo e uma breve
curso de Ética teórica no
secundário. Mais tarde ainda isso
será suprimido, o que se
comprovará ser um grande erro, porque várias
gerações cresceram sem a devida formação moral
e espiritual. Alfaro também suprimiu as missões
religiosas na Amazônia, com o que facilitou a
penetração estrangeira.
A obra fundamental de Alfaro é a ferrovia
Guayaquil-Quito, que sobe pelos difíceis declives
da cordilheira dos Andes e estabelece uma via rápida
para o transporte, o comércio e as comunicações
entre as duas principais cidade e as regiões mais
habitadas do país. Alfaro morre assassinado e logo
após sucedemse uma série de governos liberais que
combinam os interesses dos banqueiros,
exportadores e latifundiários com a permanente
fraude eleitoral, para evitar que a oposição suba ao
poder.
Durante o período liberal se destaca a notável
figura do sacerdote Federico González Suárez
(1844-1917). Arqueólogo, polígrafo, orador
notável e o maior historiador equatoriano, autor
de Historia General de la República del Ecuador,
e González Suárez teve o valor de dizer a verdade
tanto aos conservadores e aos religiosos como aos
liberais e radicais.
Notáveis foram ainda os escritores Luis A.
Martinez (também pintor) e Gonzalo Zaldumbide,
um dos grandes prosadores da primeira metade do
século XX e uma das principais figuras do
Modernismo. Sua obra mais importante é a novela
Égloga Trágica, de impressionante estilo.
No início do século XX surge também uma
brilhante geração de poetas (chamados “a geração
decapitada”, por sua vida trágica). São modernistas
brilhantes: Arturo Borja, Ernesto Noboa Caamaño,
Humberto Fierro e Medardo Angel Silva. Há que
mencionar também, à parte, o nome dos poetas e
irmãos Alfonso e Vicente Moreno Mora e o de
José Maria Egas.
Os Tempos do Liberalismo e o Surto do Cacau
O partido liberal havia-se se dividido em
dois grupos: um radical, comandado por Eloy
Alfaro, e outro mais moderado, encabeçado pelo
político de Guayaquil Pedro Carbo e mais tarde
por Leonidas Plaza, que uniu os interesses dos
comerciantes da costa com os dos fazendeiros da
serra. Assassinado Alfaro, o sistema político,
econômico e social estabelecido pelos liberais
comandados por Plaza governou vários lustros,
baseado na fraude eleitoral e na dominação dos
bancos e de certos grupos poderosos. Isso
coincidiu com um período de grande crescimento
das exportações do cacau, muito apreciado nos
Estados Unidos. Criou-se, assim, uma classe
exportadora rica, que vivia no exterior. A
oposição, composta pelos conservadores e pelo
recém-fundado Partido Socialista, só podia tentar
intervir com candidatos ou promover tumultos.
Em 1822 aconteceu em Guayaquil um massacre
de trabalhadores que protestavam pelas condições
de vida e de trabalho. Essa tragédia é mostrada
no romance social Las Cruces sobre el Agua, de
Joaquín Gallegos Lara.
A Revolução Juliana
A situação social e política do país só é
modificada com a Revolução Juliana de 1925, em
que um grupo de oficiais jovens do Exército instaura
uma ditadura coletiva e depois entrega o comando
ao dr. Isidro Ayora, ilustre médico que é o grande
reorganizador da república. Isidro Ayora ordena as
finanças, cria o Banco Central, o instituto de previdência social e as instituições de controle do
gastos público e de bancos. Com ele termina a
dominação de alguns bancos privados que
chegavam a emitir moeda e tinham um poder
desmesurado sobre assuntos públicos.
O fim do governo de Ayora
traz uma fase de instabilidade e
governos de curta duração. Talvez
o erro de Ayora tenha sido não
prever um sistema político de
eleições e sucessão pragmático
que desse estabilidade ao país.
Chegou então uma época de
defasagem social motivada pela
depressão econômica de 1929 (a
quebra da Bolsa de Nova York),
o fim da grande exportação de
cacau (causado por uma praga) e as tentativas,
muitas vezes fracassadas, dos conservadores de
voltar ao poder e dos socialistas de tomá-lo dos
liberais. O único governo de importância é o do
General Alberto Enríquez, que dura pouco tempo
(apenas um ano), mas, com o assessoramento de
intelectuais e professores, consegue ditar o Código
do Trabalho e outras leis de grande conteúdo social.
Até 1930 a situação social, a difusão de novas
idéias, a relegada condição dos indígenas e os
escritos de alguns ensaístas (Pío Jamarillo Alvarado,
Isidro Ayora Cueva
(1879-1978)
Benjamín Carrión) produzem uma nova literatura
(romance, conto, novela) de denúncia e protesto
social. Aparece então toda uma geração de
narradores de alto valor: José de al Cuadra, Demetrio
Aquilera Malta, Jorge Icaza, Benítez Vinueza,
Enrique Gil Gilbert, Alfredo Pareja, Joaquín
Gallegos Lara, Adalberto Ortiz, Angel Felicísimo
Rojas, Eduardo Mora Moreno, Humberto Salvador,
entre muitos outros. Angel F. Rojas produz quem
sabe o melhor romance equatoriano: El Éxodo de
Yangana. Situa-se à parte, mas é digna de menção,
a obra do escritor Pablo Palacio, que cria relatos
subjetivos, psicológicos, de tom kafkiano.
Originalíssimo, desconcertante, de humor ácido,
Pablo Palacio é uma figura única na literatura da
América latina. Publicou Un Hombre Muerto a
Puntapiés, Débora (1927), Vida de Ahorcado
(1932), Ensayo sobre la palavra Verdad (1937) e
Ensayo sobre la Palavra Realidad (1938).
A “Gloriosa” e o Velasquismo
Os anos de 1940 a 1944 são marcados por
fatos funestos. Um governo oligárquico e ineficiente,
nascido de uma fraude eleitoral, o do liberal Carlos
Arroyo del Río, exerceu a tirania sustentado por
seus carabineiros, enquanto forças peruanas iam
ocupando o território amazônico disputado pelos
dois países. A situação desembocou numa guerra
entre Equador e Peru (julho de 1941) e na ocupação
da província equatoriana de El Oro e outros lugares
por tropas peruanas. O governo foi incapaz de
organizar a defesa nacional e, como eram tempos
da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos
exerceram pressão para que o Equador firmasse um
tratado de paz, porque todo o continente devia
enfrentar unido a ameaça nazi-nipônica. Em janeiro
de 1942 se firmou o Tratado do Rio, prejudicial ao
Equador. Apesar disso o governo de Arroyo
sobreviveu até maio de 1944, quando uma
revolução popular organizada pela coalizão Aliança
Democrática Equatoriana, com a ajuda de alguns
militares, o derrubou e dissolveu o Corpo de
Carabineiros. Logo alguns dos dirigentes da ADE
entregaram o comando a José María Velasco Ibarra,
destacado intelectual e orador que já havia ocupado
antes, por pouco tempo, a presidência. Assim
começou a fase do “velasquismo”, um caudilhismo
e populismo que paulatinamente foi erodindo e
destruindo os três partidos políticos principais: o
conservador, o liberal e o socialista.
Velasco Ibarra (1893-1979), uma das
principais figuras políticas do Equador no século
XX, foi cinco vezes presidente da república.
Destacado intelectual, mas também notável
demagogo, era um fogoso orador, com imenso poder
sobre as multidões, e ao mesmo tempo um notável
ensaísta filosófico, que publicou numerosos livros.
Ideologicamente se inclinou mais para a direita.
Velasco Ibarra era um personagem paradoxal e
contraditório, a um só tempo caudilho de massas e
homem solitário e refinado.
Velasco Ibarra acabou com o sistema de
fraudes que particavam alguns grupos liberais,
estabeleceu a liberdade de educação, insistiu em
escolas e estradas, fortaleceu as forças armadas, mas
enfraqueceu os partidos políticos e a corrupção
cresceu por toda parte. E essas foram as
características de todos os governos do velasquismo.
Artes e Letras
A tradiçâo cultural da Escola Quitenha,
identidade do Equador, continua no tempo e na a
primeira parte do século XX existem importantes
pintores como Camilo Egas, Pedro León, Victor
Mideros y Diógenes Paredes. Também a Música
brilhou com compositores : Salvador Bustamante,
Francisco Salgado, Sixto María Duran, Luis
Humberto Salgado, Segundo Cueva Celi, Enrique
Espin Yépez.
Ao se iniciar a segunda administração de
Velasco, fundou-se a Casa da Cultura Equatoriana
(1944), instituição que logo foi copiada em muitos
Benjamín Carríon
países hispânicos. A criação dessa
importante entidade equatoriana
foi obra do escritor Benjamín
Carrión Mora (1897-1979) e de
um destacado grupo de
intelectuais de todas as
tendências (a casa se caracterizou
por sua amplitude ecumênica).
Benjamín Carrión foi o grande
promotor da cultura do
Equador. Promoveu os novos escritores e deu a
conhecer pintores como Eduardo Kingman,
Oswaldo Guayasamín e Oswaldo Munõz Mariño.
Obteve os prêmios Bento Juárez, do México, e
Eugenio Espejo, do Equador. Suas principais obras
são: Los Creadores de la Nueva América (1928),
Mapa de América (1930), Nuevo Relato
Ecuatoriano, Atahualpa (1934), Cartas al Ecuador
(1943), San Miguel de Unamuno, Santa Gabriela
Mistral. Foi precisamente Benjamín Carrión que
traçou o projeto do que deve ser o Equador, o que
se chamava de “a teoria da pequena pátria”. Segundo
essa teoria o povo equatoriano não deve pretender
grandeza militar ou predomínio econômico, senão
a grandeza de espírito, a grandeza da cultura. O
Equador com vocação para a liberdade, para as
letras e as artes, o Equador de Montalvo e da Escola
Quitenha de pintura e escultura, é o que tem de se
refazer e levantar.
Vale também citar aqui os grandes poetas da
época, César Dávila (1918-1967), que clamou pelo
destino dos indígenas, explorou a filosofia oriental
e resgatou a poesias das coisas cotidianas, e Jorge
Carrera Andrade (1902-1978), quem sabe o mais
universal dos poetas equatorianos, duas figuras de
proa da América e do século XX. No terreno da
literatura é necessário mencionar também outros
nomes, tais como os de Miguel Angel Zambrano,
Gustavo Alfredo Jácome, Miguel Angel León e
Alejandro Carrión, entre outros.
O Período de Estabilidade 1948-1960
Entre 1948 e 1960 o Equador vive um período
de estabilidade constitucional e econômica sem
precedentes em sua história. Em grande parte isso
foi o trabalho de dois homens notáveis: Galo Plaza
Lasso e Camilo Ponce Enríquez.
Galo Plaza Lasso, com seu caráter equilibrado
e sensato e seu grande sentido de pragmatismo,
desenvolveu o cultivo técnico da banana até
converter o Equador, em apenas dois anos, no
primeiro exportador mundial dessa fruta. O
Equador era então um país fundamentalmente
agrário e Plaza desenvolveu em sua gestão a idéia
de melhorar tecnicamente a agricultura e a criação de gado. Importou raças de qualidade e promoveu
a produção de laticínios. Fundou, ademais, colégios
bilíngües e deu grande estabilidade e ordem às
finanças. Logo após Plaza voltou
a eleger-se o caudilho José María
Velasco Ibarra, mas nesse
período (o único que ele
terminou) seu mandato foi
equilibrado pela presença no
Gabinete de Camilo Ponce
Enríquez, notável líder da direita
e do partido que fundou, o Social
Cristão, inspirado na doutrina
social da Igreja Católica. À
presidência de Velasco seguiu-se
a do próprio Ponce Enríquez, que competiu em
renhida eleição com o candidato de centro-esquerda
Raul Clemente Huerta. Ponce Enríquez foi um grande
construtor: fez numerosos aeroportos, edifícios
públicos, hospitais, hotéis, pontes importantes, como
a que une Guayaquil ao interior do país.
Quarta Presidência de Velasco e a Junta Militar
Em 1960 novamente José María Velasco
Ibarra ganhou as eleições, mas dessa vez, sem apoio
de Ponce e outros ministros moderados, uma
camarilha corrupta tomou conta do poder. O
Galo Plaza Lasso
(1906-1987)
presidente proclamou a nulidade do protocolo de
limites com o Peru e deu forças ao nacionalismo.
Dominado pelos agroexportadores, desvalorizou a
moeda, a vida encareceu e criou-se um clima de
corrupção e agitação social. Assumiu então o Vice-
Presidente Carlos Julio Arosemena, que quis dar
a seu governo uma tendência de esquerda.
Arosemena, homem de muito talento e cultura,
desperdiçou totalmente sua oportunidade e não
fez obra de grande relevo. Rapidamente surgiu
um movimento anticomunista e anticastrista que
se aproveitou das debilidades de caráter do
Presidente e afinal o derrubou para instalar uma
ditadura militar, sustentada pelos Estados Unidos.
A junta de governo (1963-1966) teve papel
medíocre. Realizou uma reforma agrária malfeita
(cópia de normas alheias à realidade local), que
diminuiu a produção agrícola (tanto que o país
teve de começar a importar alguns alimentos), e
reprimiu a esquerda marxista e os partidos
políticos em geral. Vários dirigentes políticos de
distintas tendências foram expatriados.
Felizmente o clamor popular e diversos fatos
circunstanciais (como a invasão da Universidade
de Quito) forçaram os militares a convocar uma
assembléia de notáveis que entregou o poder a
um presidente interino(1966), o distinto cidadão
don Clemente Yerovi Indaburu, que em menos de
um ano reorganizou as finanças e a administração
pública, restabeleceu a ordem e convocou uma
Assembléia Constituinte. Após o período
interinado realizaram-se novas eleições e outra vez
foi eleito, pela quinta vez, José María Velasco
Ibarra. Essa foi a última presidência do notável
político.
A Ditadura Militar
Em 1972 as Forças Armadas, encabeçadas pelo
general Guillermo Rodrigues Lara, derrotaram o
Presidente Velasco Ibarra e instauraram uma
ditadura “nacionalista revolucionária”. Era uma
época em que se generalizavam as ditaduras na
América Latina. Por sorte do Equador, foi uma
ditadura progressista e não se cometeram excessos
nem violações dos direitos humanos. Nessa época
começou no Equador a exploração de petróleo em
grande escala, e de fato, para o bem ou para o mal,
mudou a vida dos equatorianos para sempre. Foi
de muito mau presságio a ridícula procissão “cívica”
com que foi recebido em Quito o primeiro barril
de petróleo, como se se tratasse de um herói. Assim
pela primeira vez na história do Equador, o Governo
teve grandes somas em dinheiro (o preço do barril
de petróleo chegou a 40 dólares). O Governo pagou
a velha dívida da independência, construiu uma
série de edifícios públicos e colégios, aumentou a
burocracia, edificou estradas, pontes e represas e
deu uma importância exagerada a economistas e
tecnocratas. Foi uma lástima que tantos recursos se
utilizassem, quase sempre, sem preocupações com
o futuro.
O regime de Rodrigues Lara durou quatro anos,
ao cabo dos quais sucumbiu a uma segunda tentativa
de golpe de militares desleais. Um almirante e dois
generais formaram um governo que carecia de
qualquer justificativa histórica. O cérebro desse
triunvirato era o general Durán Arcentales, que não
se distinguiu por um correto comportamento no
manejo da coisa pública. O novo triunvirato cometeu
violações dos direitos humanos (entre elas, o
traiçoeiro assassinato do dirigente liberal alfarista
Abdón Calderón Muñoz) e expulsou os dirigentes
dos partidos políticos.
Afinal, a pressão política e popular conseguiu
que os componentes do triunvirato aceitassem realizar
um plebiscito para aprovar uma constituição, feita
por uma comissão medíocre, e se convocaram
eleições. As forças armadas vetaram a candidatura
de Asaad Bucaram e foi eleito em seu lugar, como
presidente da República, Jaime Roldós Aquilera, que
ficou no poder somente um ano, falecendo em um
acidente de avião. Esse foi o começo de uma longa
fase de decadência econômica e política.
Governos Constitucionais
Roldós foi substituído por Oswaldo Hurtado,
que, ainda que de filiação democrata-cristã,
governou com os banqueiros e entregou a alfândega
ao populismo. Em seguida, ascendeu León Febres
Cordero, da direita socialcristã. O governo de Febres
Cordero enfrentou duas circunstâncias
desfavoráveis: o baixo preço do petróleo, principal
produto de exportação, e um terremoto que causou
graves danos. Reprimiu rapidamente um incipiente
movimento de guerrilha marxista e enfrentou uma
rebelião militar. Seu sucessor, o socialdemocrata
Rodrigo Borja, foi eleito com notável maioria e o
povo lhe deu o controle do Congresso, mas não
contou com suficientes planos para executar. Só no
final de seu mandato realizou obras de aterramento
em parte das favelas de Guayaquil, diques na cidade
de Babahoyo e contratou a restauração e
modernização da ferrovia, mas esse projeto foi
lançado por terra no governo seguinte, pelos
empresários que não queriam perder suas
influências e seus monopólios. Nada obstante, o
governo de Borja foi o governo honesto dessa época.
O presidente se deu ao luxo de ir a pé ao Congresso
ao entregar o poder, sob o aplauso de seus
concidadãos.
Populismo instável : o tempo desperdiçado
Dai em diante foi um a situação do pais piorou.
Borja foi sucedido pelo presidente onservador Sixto
Duran Ballem. A primeira parte de sua
administração foi positiva para o desenvolvimento
da economia, mas lamentavelmente sobreveio um
período de corrupção e se reduziu o poder da
superintendência estatal para controlar as operações
bancárias. Durante o governo de Durán Ballén
produziram-se alguns incidentes fronteiriços que
terminaram em guerra não declarada e localizada
entre o Equador e o Peru. A resistência equatoriana
e o domínio aéreo que o Equador conseguiu
forçaram o Peru a ir à mesa de negociações. Sob os
auspícios dos quatro países fiadores do Protocolo
do Rio de Janeiro (de 1941) – Argentina, Brasil,
Chile e Estados Unidos –, foram selados vários
acordos de paz, de limites, comércio, navegação e
integração, firmados em Brasília em 1998. Equador
e Peru conseguiram transformar uma grande disputa
territorial num programa de desenvolvimento
fronteiriço binacional. Cabe assinalar que os gastos
do conflito mencionado afetaram notavelmente a
economia do país.
Logo o populismo e a demagogia impuseram
o governo caótico de Adbalá Bucaram. A corrupção
administrativa e o desprestigio do governo
provocaram a reação de todas as forças políticas e
da cidadania. Bucaram ficou só seis meses no poder.
Mercê de uma obscura conjunção de forças do
Congresso e alguns comandantes militares, entregouse
o poder a Fabián Alarcón, presidente do
Legislativo. Este fez um governo controverso que
durou um ano. Convocadas as eleições gerais,
proclamou-se vencedor o democrata-cristão Jamil
Mahuad. O presidente, como havia sido eleito com
a cumplicidade de alguns bancos, sacrificou os
recursos do Estado para salvar os interesses de
banqueiros que haviam realizado uma série de
empréstimos e operações fraudulentas. Como
resultado dessas operações imorais veio uma crise
monetária e bancária. Inúmeros equatorianos
perderam dinheiro que tinham em bancos, e para
estabilizar a economia o Governo decretou (de forma
inconstitucional) a troca do sucre pelo dólar americano
como moeda do Equador, a uma taxa desmesurada.
Mahuad teve que fugir e o substituiu seu vicepresidente,
Gustavo Noboa. Durante a presidência
de Noboa construiu-se uma importante rede de
estradas. A crise econômica desses anos provocou a
emigração de grande número de equatorianos
(possivelmente mais de um milhão) para o exterior.
Posteriormente, num processo com excessivo
número de candidatos, foi eleito presidente o
coronel Lucio Gutiérrez, que participou na
deposição de Mahuad. Em verdade, era
representante de uma minoria. Quando o governo
perdeu o apoio do setor indígena (depois de seis
meses) entrou numa fase de nepotismo e
decomposição. O clamor do povo de Quito, que
saiu espontaneamente às ruas, sem a intervenção
de dirigentes políticos, retirou Gutiérrez do poder.
Assumiu o vice-presidente, dr. Alfredo Palacio.
No final do ano de 2006 as eleições produziram
uma redistribuição de forças políticas e se elegeu
novo presidente da República e novo Congresso.
Foi conduzido à presidência o economista Rafael
Correa, que propôs realizar reformas radicais e
convocar uma assembléia nacional constituinte.
O Equador tem imensos recursos naturais, uma
rica geografia e uma população inteligente. O que
necessita é educação, ordem e esforço. A esperança
não morre.
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pessoais e não representam necessariamente o ponto de vista
do Governo, da Chancelaria ou do Estado equatoriano.
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