Embaixada do Equador no Brasil
Embaixada do Equador no Brasil

PEQUENA HISTÓRIA DA REPÚBLICA DO EQUADOR

O autor

Ensaísta, historiador, pensador e poeta, Eduardo Mora-Anda divide o seu tempo entre a diplomacia, a cátedra e os livros. É autor de Palabras Personales (Madrid 1991), Viaje Esencial (Quito,1993), Los Salmos del Mar (Buenos Aires, 1999), Hablarán los Días (CCE, Loja,2005) e Historia de los Ideales (diversas edições, a primeira em Quito, 2001, sob o título Los Valores y los Siglos; tradução brasileira – História dos Ideais – publicada em 2006 por esta editora). Residiu no Peru, Chile, Estados Unidos, Guatemala, Espanha e Argentina, vivendo atualmente no Brasil, como embaixador de seu país. Realizou estudos em sua pátria, nos Estados Unidos e na Itália e visitou a Suíça numerosas vezes. Durante três anos dirigiu o Plano de Desenvolvimento Binacional Equatoriano-Peruano. Integra o Grupo Cultural América, de Quito, e é membro correspondente da Academia Argentina de História.


1 – O PAÍS DA METADE DO MUNDO

Entre Colômbia e Peru e o Oceano Pacífico localiza-se um país pequeno mas exuberante e variado: o Equador. Em pouco mais de 256. 370 km2 o Equador tem todos os climas e todas as paisagens: uma costa tropical, a fria serra andina, os vulcões e a neve, a misteriosa selva Amazônica e as ilhas Encantadas ou Galápagos.

A costa tropical exibe a magia de amplas praias de areias quentes, rodeadas de palmeiras. Praias que banha um oceano Pacífico que a essa altura já está temperado pelas correntes marinhas. Em algumas partes a margem é coberta por escuros manguezais. Em outras foram construídos grandes tanques para a criação de camarões. No interior dessa região há exuberantes distritos onde crescem a fruta-pão (chamada “árvore do pão”, pela generosidade dos seus frutos), os floridos guaiacos, as imensas plantações de bananas, os barrigudos ceibos, os cacaueiros que produzem o famoso cacau aromático, para fazer o mais nobre dos chocolates, os cultivos de cana-de-açúcar e do café de Manabí e, a meio caminho da serra, os aromáticos cafezais de Zaruma. Trata-se, como disse Gabriela Mistral, de um trópico bom e fecundo, onde vive um homem mestiço, alegre, decidido, sensual e ardente, personagem de mudanças rápidas e digno, amigo EDUARDO MORA-ANDA eterno de seus amigos e apaixonado amante de seus amores.

Não é preciso viajar muito para chegar à serra equatoriana. Aqui a cordilheira dos Andes forma uma deslumbrante cadeia de picos nevados e vulcões, em meio dos quais existem vales verdes temperados e extensas regiões de clima mais frio. Como fruto da longa história do país, as cidades das serras combinam o andino com o barroco, os elementos da cultura espanhola com os da indígena andina.

Para o leste as montanhas descem vertiginosamente e logo se pode chegar, junto com rios ligeiros que vão constituir o Marañón/ Amazonas, aos bosques e às planícies da região amazônica, região quente e úmida, onde cresce grande variedade de árvores e plantas medicinais e onde estão também as importantes jazidas de petróleo que desde 1960 marcam profundamente a economia do Equador.

A essas três regiões temos que juntar também as ilhas Galápagos, a 600 milhas da costa, em pleno Pacífico. Nessas ilhas vulcânicas a paisagem é única e está bem conservada, e ali se encontra uma série de espécies animais e vegetais que já não existem noutras partes do Planeta e que, por sua adaptação às diferentes circunstâncias, permitiram ao cientista inglês Charles Darwin desenvolver sua teoria da evolução das espécies.

O Equador tem atualmente 21 províncias divididas em regiões. As principais cidades são Quito, a capital, e Guayaquil, o principal porto e centro comercial do país, Cuenca, centro industrial e turístico, Loja, Machala, Santo Domingo, Ambato, El Puyo, Macas, entre outras.

2 – Sua História

“...la historia toda es una serie no acabada nunca de rectificaciones y justicias...”
Azorín

I – A história antiga

Para essas terras equatoriais, em tempos remotos, viajaram pessoas desconhecidas, procedentes da Ásia e da Oceania. Algumas de raça bronzeadas e outras de raça amarela. A vida nos trópicos e a vida na costa americana e nas alturas dos Andes foram mudando seus habitantes pouco a pouco. Logo desenvolveram-se culturas mais adaptadas a seu novo território.

Na costa, uma migração possivelmente japonesa criou a chamada cultura Valdívia, uma das mais antigas das Américas, cinco mil anos atrás, uma cultura que nos deixou as marcas de suas belas vasilhas de cerâmica e pequenas figuras de deusas nuas, que nos revelam um povo matriarcal, sensual e alegre. Mas também foram identificadas outras culturas muito antigas, que deixaram muitos utensílios e objetos domésticos e de culto: Jama Coaque, Guangala, La Tolita, Machalilla, entre outras...

Mais tarde na costa equatoriana viveram as tribos dos mantas, cayapas, huancavilcas e punáes.

Nas alturas da serra houve uma migração importante: a dos caras, que representavam a etnia principal nas zonas vizinhas da atual Quito. Sua presença deu origem à lenda da existência do Reino de Quito. De qualquer forma, quando chegaram os Incas ao Equador, no século XV, já governavam grande parte da zona andina os shyris, os chefes tutelares dos caras. Outras comunidades também viviam nas cercanias: ao norte os imbayas e quillassingas, no centro os panzaleos e os puruhuaes, ao sul os cañaris e os paltas. Já para o oriente uma série de tribos: os quijos, secoyas, shuaras, ashuares, huaronis, quíchuas amazônicos e outros. Recentemente, no sul oriental, na província de Zamora, foram encontrados restos de uma cultura muito antiga, quem sabe contemporânea ou anterior à chimú.

A célula fundamental de todas essas tribos era o ayllu, a reunião de famílias unidas por uma comunidade de sangue e de costumes. Os ayllus formavam tribos de pequeno reinos, às vezes aliados entre si, outras vezes em guerra uns com os outros.

Os índios do Equador tinham diferentes deidades: veneravam a mãe terra, certos lugares (huacas) e animais, determinados objetos que supunham com alma e montanhas. Por volta de 1460, pelo sul, os incas invadiram a região e após sucessivas batalhas incorporaram Quito a seu império, o chamado Tahuantinsuyo. Primeiro conquistou o sul do país o Inca Túpac Yuapanqui. Logo avançou para o norte seu filho e sucessor Huayna Cápac, possivelmente nascido em Tomebamba, a atual cidade de Cuenca, e ocupou Quito e as províncias nortistas até Pasto.

A sociedade inca era dividida em castas e muito hieraquizada. Sua economia se baseava na agricultura e, sobretudo, no milho, na batata e na quinoa. A terra se repartia em três porções: uma para o culto do Sol e dos sacerdotes, outra para o Inca (rei) e para os anos de má colheita, e uma terceira para o povo (coletiva). O meio de transporte era o lhama. Não se conhecia a roda. Tinham um sistema de correios (os chasquis) e um método de contabilidade decimal (os quipus). Os incas não tiveram escrita e a memória de seus amanautas (sábios) transmitia as tradições.

Antes de morrer, Huayna Cápac dividiu seu império (que ia desde Pasto até o rio Maule, no Chile, e Mendoza, na atual Argentina) entre dois de seus filhos. No norte reinaria Atahualpa, filho de uma princesa quitenha; ao sul, Huáscar, filho da principal esposa do Inca. Não demorou muito a guerra fratricida explodiu, triunfando Atahualpa. O império ficou debilitado, e disso aproveitaramse os homens brancos e barbudos, os espanhóis, que por essa época chegavam às costas equatorianas.

II – A Conquista Espanhola

As costas equatorianas foram descobertas pelo piloto Bartolomeu Ruiz. No ano de 1531 Francisco Pizarro e um pequeno grupo de espanhóis desembarcaram na ilha de Puná e em seguida em Tumbes e avançaram até o interior; em Cajamarca, com logros, capturaram o Inca Atahualpa. Depois, apesar da resistência do general Rumiñahui e sua gente, os espanhóis apoderaram-se do império incaico, que então, calcula-se, tinha 15 milhões de habitantes. Os espanhóis tinham a vantagem das armas de fogo e dos cavalos, que deixaram os índios espantados, e além disso as enfermidades que trouxeram consigo dizimaram a população local. Também ajudou na conquista a colaboração de algumas comunidade que haviam sido maltratadas por Atahualpa ou se sentiam oprimidas pelos incas. Além disso a sociedade inca era tão verticalizada, hierarquizada, que o povo estava acostumado a se submeter: aniquilada a classe alta (a guerra entre Huáscar e Atahualpa liquidou muitos nobres e comandantes, e este e seus generais morreram), não ficou muita gente com capacidade política ou militar para reagir (só um grupo tardio, encabeçado por Túpac Amaru, se rebelou no Alto Peru contra a dominação espanhola, mas fracassou em seu intento de libertação). Tampouco faltaram os matrimônios mistos: vários conquistadores se casaram ou se uniram com princesas índias, o próprio Pizarro tomou por esposa uma irmã de Atahualpa, e inumeráveis espanhóis tiveram relações com as indígenas. A mestiçagem, característica dos países andinos, havia começado.

III – A vida na época colonial

Os conquistadores espanhóis fundaram numerosas cidades que logo floresceram. Assim nasceram Quito (1534), Loja, Guayaquil, Portoviejo, Cuenca, Zaruma, Zamora, Valladolid, Ibarra, entre outras. Outras cresceram a partir de assentamentos indígenas. A extração do ouro deu prosperidade a cidades como Loja e Zaruma, que depois entraram em decadência. A agricultura foi desenvolvida a partir de cereais vindos da Europa (aveia, trigo, cevada) e continuou o cultivo de frutos e legumes nativos da América, tais como a batata, a quinoa, o milho e o tomate. As frutas européias (maçãs, peras, laranjas, limões) se juntaram às americanas (melões, pinhas, abacates, frutas-de-conde). A comida cotidiana combinou os produtos europeus com os americanos.

As terras eram propriedade dos espanhóis e brancos crioulos (nativos), que as fizeram produzir com base no trabalho forçado dos índios (as encomiendas). Essa instituição foi criada para a proteção e evangelização dos índios, mas os conquistadores as deformaram a seu favor. Foi suprimida em 1725.

As minas foram exploradas pelo sistema de recrutamento obrigatório denominado mitas (tomado dos incas), que produziu inumeráveis mortes. As manufaturas e pisões produziam têxteis que, pelo século XVIII, não puderam competir com a produção industrial inglesa e desapareceram.

Os clérigos e frades católicos, por sua vez, evangelizaram os índios dos novos territórios e fundaram uma série de igrejas, conventos, colégios e missões. A evangelização, entretanto, foi muito imperfeita, pois, mais que cristianização, resultou numa superposição e mistura de práticas e crenças católicas com outras próprias dos índios.

É de ressaltar o papel de frei Jodoco Ricke, franciscano, primo do Imperador Carlos V, que levou a Quito o trigo, os gerânios, os gorriones (pássaros semelhantes aos pardais) e instaurou a primeira escola de artes, da qual nasceria a fecunda Escola Quitenha de pintura e escultura, na qual se destacariam, entre muitos índios, crioulos e mestiços, os escultores Caspicara, Pampipe, Robles e Olmos, e pintores como Miguel de Santiago, Samaniego, Miguel de Gorívar e o padre Bedón.

Logo a vida nas cidades equatorianas exigiu que o Rei convertesse Quito numa Real Audiência e num Bispado. Por outra parte, o afã de conquistar, fundar novas vilas e evangelizar deu origem a uma série de “governanças” e missões, em particular à Governança de Yaguarzongo, confiada a don Juan de Salinas Loyola, fundador de seis cidades, e às mais importantes missões jesuíticas da Amazônia, um de cujos membros, o padre Samuel Fritz, chegou a fundar cerca de quarenta povoados.

Especial relevância tem a expedição organizada por Gonzalo Pizarro para conquistar o assim chamado País da Canela (a atual Amazônia), expedição a que se uniu Francisco Orellana e que esteve integrada por mais de cem espanhóis e milhares de indígenas. A expedição saiu de Quito, cruzou a cordilheira dos Andes e com muitas dificuldades e trabalhos avançou pela selva. No caminho muitos morreram por causa das doenças, inclemência do clima e ataques de índios. A situação dos expedicionários tornou-se tão crítica que uns seguiram por terra e outros construíram um barco pequeno, comandado por Francisco Orellana, com o qual este seguiu pelos rios e descobriu o enorme rio Amazonas, batizado assim por causa da lenda de que naquela região existia uma tribo de mulheres guerreiras, as amazonas. Orellana não voltou ou não pôde voltar para resgatar seus companheiros de peripécias, mas alcançou o Atlântico e seguiu para a Espanha, aonde chegou a salvo. Quanto aos poucos sobreviventes do outro grupo, com Gonzalo Pizarro no comando, chegaram a Quito, famintos, doentes e maltrapilhos. A epopéia de Orellana e Pizarro, contada pelo padre Carvajal, seu capelão e cronista, gerou uma importante obra de literatura.

A vida nas cidades equatorianas da colônia (aproximadamente 300 anos) era uma existência conventual, bem regulada pelas festas e atividades religiosas e só alterada por algum escândalo local, a chegada de correspondência da Espanha e as touradas, as festas e os éditos. Nada obstante, na época colonial foram registradas duas rebeliões: a dos estancos, em protesto por causa da carga de impostos que mantinham os monopólios reais, e a dos alcabalas, que se iniciou por causa similares mas teve um significado mais profundo, pois foi uma verdadeira rebelião dos bairros populares de Quito, encabeçada por um mestiço chamado Moreno Bellido. Desde essa época, o povo de Quito sempre deu mostras de uma capacidade de reação e rebeldia política que eclode espontaneamente, em numerosas crises e diante dos maus governos que o país tem sofrido.

Na época colonial se destacam na literatura o padre Juan Bautista Aguirre (1725-1786), notável poeta culterano, que compôs elegias, poesias humorísticas e estudos filosóficos, e o bispo Gaspar de Villarroel (1587-1885). No campo das ciências e das explorações figura o cientista Pedro Vicente Maldonado (séc. XVII) e na história o padre Juan de Velasco (1727-1792), primeiro historiador do país. Sustentou a teoria (ou lenda) da existência do Reino de Quito, discutida depois por outros estudiosos. Os principais livros de Juan de Velasco são Historia Moderna del Reino de Quito y Crónica de la Provincia de la Compañía de Jesús e Colección de Poesías Varias, Hecha por un Ocioso en la Ciudad de Faenza.

Mas a principal figura da época colonial do Equador foi Eugenio de Santa Cruz y Espejo (17471795). Homem típico da Ilustração, foi o primeiro jornalista de Quito, um médico que –antes de Pasteur– concebeu a idéia dos micróbios, um escritor prolífico e precursor da independência das colônias hispânicas. Organizou a Sociedade Patriótica Amigos do País. No dia 5 de janeiro de 1792 lançou a primeira publicação do jornal Primicias de la Cultura de Quito. Escreveu diversos livros sobre temas políticos, sociais e médicos: El Nuevo Luciano de Quito, La Ciencia Blancardina, Reflexiones sobre la Viruela, Marco Porcio Catón, etc. Em 1785 escreve a sátira intitulada El Retrato de Golilla. Apesar de sua origem pobre, humilde e mestiça, estudou e se superou até ser o homem mais culto do país. Acusado de conspirar pelas autoridades espanholas, foi preso e morreu na prisão. Eugenio Espejo é uma das mais complexas personalidades da história do Equador e das Américas.

Por fim há que mencionar a figura de José Mejía Lequerica (1775-1813), orador fogoso e notável patriota, que estudou medicina e teologia e representou o Vice-Reinado de Santa Fé nas Cortes de Cádiz (1810), onde se destacou por suas brilhantes exposições. Suas intervenções estão compiladas nos Discursos de Don José Mejía en las Cortes Españolas de 1810-13. Mejía propôs a igualdade de direitos entre os espanhóis da península Ibérica e os “espanhóis da América”.

Mais tarde a expulsão dos jesuítas, decretada pelo Rei Carlos III em 1716, causou grave dano ao país: foram fechadas as universidades, colégios e escolas, a cultura declinou, foram paralisadas as missões da Amazônia, decaíram muitas igrejas, perderam-se bibliotecas inteiras, ou foram dispersadas e repartidas. Muitos povoados foram abandonados, com o que a presença de Quito na Amazônia diminuiu. Enfim, a educação sofreu notável retrocesso.

Em 1735 o país foi visitado por uma missão científica francesa (a Missão Geodésica), encabeçada por Carlos Marie de La Condamine e enviada pela Academia de Ciências de Paris. Chegaram para medir um arco do planeta Terra e comprovar sua forma e dimensões, mas na verdade fizeram um trabalho muito mais amplo e uma investigação geográfica e biológica muito grande. Eles e os cientistas espanhóis que os acompanhavam (Jorge Juan e Antonio de Ulloa) enviaram informações à Europa em que se começou a falar das “terras do Equador” – pela linha geográfica que as cruzava. Assim se começou a deixar de lado o nome histórico de Presidência de Quito e se estabeleceu o costume de falar do Equador.

IV – A independência e a Grã Colômbia

A influência das novas idéias políticas que chegavam da França (a Ilustração e o Enciclopedismo), a independência dos Estados Unidos (1776) e a Revolução Francesa (1789), assim como a decadência do Império Espanhol, deram origem na América hispânica a fortes correntes políticas que favoreceriam a separação das colônias. Somava-se a isso a competição entre espanhóis e crioulos (os americanos) pelos cargos públicos, o descontentamento popular com o regime e o monopólio comercial exercido pela Espanha, que impedia o desenvolvimento das colônias.

Aproveitando a invasão da Espanha por Napoleão, em 10 de agosto de 1809, constituiu-se uma Junta de Governo, encabeçada por Juan Pío Montúfar, a qual destituiu as autoridades espanholas. A rebelião foi sufocada por tropas reais vindas do sul, e em 2 de agosto do ano seguinte foram mortos os membros da Junta, exceto o doutor Antonio Ante, que foi enviado para Ceuta, na África. Esse fato lamentável eliminou a elite política quitenha e determinou que no começo da República equatoriana interviessem políticos nascidos em outros países, como o general Juan José Flores.

Entre 1809 e 1812 houve um período de lutas entre independentistas e espanhóis. Chegaram aqueles a editar uma Constituição Quitenha, datada de 1812.

Posteriormente, em 9 de outubro de 1920, um movimento independentista, encabeçado pelo poeta José Joaquín Olmedo, proclamou a independência de Guayaquil e o regime republicano. Data importante não só para Guayaquil, senão também para outras cidade que fizeram o mesmo. O novo governo de Guayaquil Independente iniciou então ações militares para libertar a Serra equatoriana. Logo, as tropas americanas enviadas pelo general Simón Bolívar, que já havia libertado da Espanha a Venezuela e Santa Fé (a atual Colômbia), chegaram a Guayaquil e por fim uma força composta por equatorianos, argentinos, colombianos, venezuelanos, comandadas pelo marechal Antonio José de Sucre, derrotou o general espanhol Aymerich na batalha de Pichincha, diante da própria cidade de Quito (24 de maio de 1822). Esses últimos sucessos fizeram que o Equador fosse incorporado à Grã Colômbia que organizava Bolívar, e assim viveu até o ano de 1830.

No terreno da cultura, com o advento da independência, o cultureranismo da Colônia deu lugar ao Neoclacissismo e apareceu a poesia épica e revolucionária. A principal figura desse período foi o próprio José Joaquín Olmedo (1780-1847), um dos mais importantes escritores hispanoamericanos do século XIX. Foi também um grande orador. Deputado nas Cortes de Cádiz, deputado por Puno no Congresso do Peru, chefe político de Guayaquil e candidato à Presidência do Equador. Sua principal obra é Canto a la Victoria de Junín, dedicado a Bolívar.

V – A República

O regime grã-colombiano não melhorou as condições de vida da população. A guerra da independência havia empobrecido muitas províncias. As distâncias entre cidades equatorianas e Bogotá e a falta de meios de transporte impediamo estabelecimento de uma boa administração pública. Logo o povo se viu acossado pelas exigências de manter um enorme exército libertador, e foram contínuas as disputas e protestos. (Ao contrário do que fez Washington nos Estados Unidos, nos países andinos cometeuse o erro de não licenciar prontamente a maior parte das tropas que atuaram na independência.) A isso juntou-se o assassinato do marechal Antonio José de Sucre, eventual sucessor de Bolívar. Até o final da década surgiram fortes movimentos de desintegração da Grã Colômbia, a Venezuela se separou, Bolívar havia deixado o comando e em maio de 1830 se constituiu o Equador como República (que assumiu o nome dado pelos geógrafos franceses em lugar da denominação histórica do país). A primeira Assembléia Constituinte designou o General Juan José Flores como primeiro presidente.

Flores, Rocafuerte e a Revolução de Março

O General Flores era um astuto caudilho militar sem maior preparação para a administração pública. Seu governo foi ineficiente, autoritário e abusivo. Teve além disso que enfrentar várias rebeliões militares. As recíprocas intervenções dos governos de Colômbia e Equador na política partidária mútua produziram uma guerra que levou à perda das províncias de Pasto e Popayán. Logo apareceram grupos de oposição (como o jornal El Quiteño Libre) e várias revoltas explodiram. Flores negociou um acordo que levou ao poder o patriota de Guayaquil Vicente Rocafuerte, notável intelectual que havia representado o México e a Colômbia em Londres. Rocafuerte foi um presidente honesto e muito rigoroso, que impulsionou a educação. Seu governo constituiu a página mais brilhante desse período, em que o país oscilou entre o militarismo e as influências estrangeiras, por um lado, e o afã civilista e nacionalista, pelo outro. Depois Flores voltou ao poder e propiciou uma constituição que lhe dava poderes totais (a chamada Carta da Escravidão). O descontentamento cresceu, as conspirações se multiplicavam e finalmente Flores foi derrubado pela revolução nacionalista de março de 1845.

Os Tempos de Urbina

A revolução de março eliminou a presença de estrangeiros nas forças armadas, mudou a bandeira e ditou nova Constituição. O governo do presidente Ramón Roca foi tolerante e tranqüilo. Sucederam-se outros governos sem maior significado, e entre 1852 e 1859 dominou a política equatoriana a figura do general José María Urbina, que se revezou na presidência com seu amigo o general Robles. Não é uma época de grandes realizações, com exceção de uma: em 1851 foi decretada a libertação dos escravos (que não eram muitos no Equador, pois grande parte da população das províncias de raça negra de Esmeraldas nunca sofreu a escravidão: originavase de sobreviventes de um naufrágio, que se radicaram alí e viveram livres). Por outro lado, como Urbina era anticlerical, expulsou novamente os jesuítas, que haviam retornado fazia apenas dois anos.

No final da gestão de Robles, o governo equatoriano quis pagar sua dívida com a Inglaterra, a qual se arrastava desde a independência. A idéia era pagá-la entregando terras da Amazônia, que seriam utilizadas por colonos ingleses. O trato não se pôde concluir por causa dos protestos e gestões do Peru, que reclamava parte desses territórios, e por ataques míopes da oposição. Houve grande agitação social e os conservadores e outros setores iniciaram uma série de revoltas que terminaram com a saída de Robles e a proclamação do governo do general Franco em Guayaquil e de um triunvirato em Quito. Logo também a província de Loja, que então abarcava o sul do Equador, proclamou um Governo Federal, presidido por Manuel Carrión Pinzano. Resultou esse numa experiência muito interessante, pois trouxe progresso e prosperidade à região: organizou uma Corte, criou o Bispado, fomentou a educação, baixou os impostos para combater o contrabando. Logo houve enfrentamentos com as forças de Quito e de Guayaquil, e o marechal Castilla, Presidente do Peru, bloqueou o porto de Guayaquil e obrigou Franco a firmar um tratado que reduzia à metade o território equatoriano. O tratado foi repudiado pelos demais setores do país e ainda o próprio Peru o desconsiderou, posteriormente. Gabriel García Moreno, presidente do triunvirato de Quito, conseguiu então reunificar o país: derrotou Franco, provocou a renúncia de outro governo que vinha funcionando em Cuenca e negociou a reincorporação de Loja. Como resultado de tudo isso García Moreno assumiu como presidente e foi convocada a convenção de 1861, em que o deputado de Loja Toribio Mora propugnou o federalismo, moção que foi derrotada pelo voto dos delegados do centro e do norte do país. O que Toribio Mora conseguiu foi a aprovação do voto universal dos maiores de vinte e um anos de idade, pois anteriormente, desde a época de Flores, para votar se necessitava ter um certa renda e possuir propriedades ou imóveis, e para ser Presidente se requeria uma renda maior.

O Período Garciano

Em 1860 sobe ao poder Gabriel García Moreno (18211875), um dos mais importantes políticos equatorianos e latinoamericanos do século XIX, famoso tanto por seu temperamento severo e repressivo como por seu catolicismo extremado e seu formidável trabalho como Presidente do Equador: criou escolas e colégios, construiu G. Garcia Moreno (1821-1875) estradas e pontes, trouxe várias ordens religiosas para educar os jovens e crianças, fez que outra vez regressassem os jesuítas e aproveitou-se das perseguições da Kulturkampf de Bismarck na Alemanha para trazer para o Equador famosos cientistas e fundar com eles a Escola Politécnica e o Observatório Astronômico. Também iniciou a ferrovia que seria terminada pelo Presidente Alfaro. García Moreno reprimiu duramente a oposição e foi muito combatido pelos liberais e por setores mais moderados, sendo finalmente assassinado por um grupo de conspiradores.

Opositor tenaz de García Moreno foi o notável escritor Juan Montalvo, autor de numerosos ensaios filosóficos e políticos (Los Siete Tratados, Capítulos que se le Olvidaron a Cervantes). Destacaram-se também nessa época Miguel Riofrío, autor de La Emancipada, talvez o primeiro romance equatoriano, e o romancista Juan León Mera, autor de Cumandá, obra romântica notável por suas descrições de paisagens.

A Época de Veintimilla

A García Moreno sucedeu o Presidente Antonio Borrero y Cortázar, homem probo e moderado, mas o seu governo logo foi derrubado pelo general Ignácio Veintimilla, que dominou o país durante oito anos (1876-1883). A administração desse ditador foi medíocre e só restou dela o Teatro Sucre, de estilo neoclássico, em Quito. Nessa época aconteceram dois crimes horrendos: o bispo José Ignácio Ordóñez foi envenenado e o líder conservador don Vicente Piedrahita morreu assassinado. Veintimilla foi derrotado em uma luta de vários meses levada a cabo por forças combinadas de progressistas, liberais e conservadores. Foi o que se chamou, e com razão, “A Restauração” da República.

A Era dos Progressistas

Entre 1883 e 1895, sucederam-se vários governos progressistas (católicos liberais). Há que distinguir aqui entre o governo repressivo de Plácido Caamaño (que decretou numerosos fuzilamentos) e o governo ilustre de Antonio Flores Jijón. É uma época de certo progresso material e econômico, graças à exportação do cacau, mas os liberais combatem incessantemente o governo com guerrilhas e fazem um escândalo do uso que se dá à bandeira nacional num barco de guerra, para favorecer o Chile; por fim conseguem depor o terceiro presidente progressista, o ilustre poeta Luis Cordeiro, e se instaura o regime liberal (revolução de 1895).

Nessa época é necessário mencionar o trabalho do educador lassalista Francisco Febres- Cordero (o Irmão Miguel), que também escreveu poesias e deixou claríssimos textos para o ensino primário e secundário, incluindo uma excelente Gramática de la Lengua Castellana. Membro da Real Academia da Língua, foi condecorado pela França e declarado santo pelo Papa João Paulo II. Na literatura também se destaca o poeta Julio Zaldumbide e o próprio Presidente Luis Cordero, que é o primeiro presidente que fala e escreve tanto em espanhol quanto em quéchua. No campo das artes há uma geração importante integrada pelos pintores Luis Cadena, Joaquim Pinto, Antonio Sales, Luis A. Martínez e Rafael Troya.

A Revolução Liberal

No poder os liberais, encabeçados por Eloy Alfaro e depois por Leonidas Plaza (contra o qual mais tarde se rebelou Alfaro), instauram a separação entre igreja e estado, expropriam as terras que possuía o Clero, e estabelecem a liberdade de culto, o casamento civil e o divórcio.

Alfaro funda uma série de instituições educativas de acentuado caráter laico e mesmo antireligioso: colégios, escolas, institutos para Eloy Alfaro (1842-1912) mulheres, o colégio militar. Suprime-se o ensinamento da religião católica nos colégios, mas não se preenche a lacuna com a ética e religiões comparadas, ou aulas optativas de religião, senão com vagas noções de civismo e uma breve curso de Ética teórica no secundário. Mais tarde ainda isso será suprimido, o que se comprovará ser um grande erro, porque várias gerações cresceram sem a devida formação moral e espiritual. Alfaro também suprimiu as missões religiosas na Amazônia, com o que facilitou a penetração estrangeira.

A obra fundamental de Alfaro é a ferrovia Guayaquil-Quito, que sobe pelos difíceis declives da cordilheira dos Andes e estabelece uma via rápida para o transporte, o comércio e as comunicações entre as duas principais cidade e as regiões mais habitadas do país. Alfaro morre assassinado e logo após sucedemse uma série de governos liberais que combinam os interesses dos banqueiros, exportadores e latifundiários com a permanente fraude eleitoral, para evitar que a oposição suba ao poder.

Durante o período liberal se destaca a notável figura do sacerdote Federico González Suárez (1844-1917). Arqueólogo, polígrafo, orador notável e o maior historiador equatoriano, autor de Historia General de la República del Ecuador, e González Suárez teve o valor de dizer a verdade tanto aos conservadores e aos religiosos como aos liberais e radicais.

Notáveis foram ainda os escritores Luis A. Martinez (também pintor) e Gonzalo Zaldumbide, um dos grandes prosadores da primeira metade do século XX e uma das principais figuras do Modernismo. Sua obra mais importante é a novela Égloga Trágica, de impressionante estilo.

No início do século XX surge também uma brilhante geração de poetas (chamados “a geração decapitada”, por sua vida trágica). São modernistas brilhantes: Arturo Borja, Ernesto Noboa Caamaño, Humberto Fierro e Medardo Angel Silva. Há que mencionar também, à parte, o nome dos poetas e irmãos Alfonso e Vicente Moreno Mora e o de José Maria Egas.

Os Tempos do Liberalismo e o Surto do Cacau

O partido liberal havia-se se dividido em dois grupos: um radical, comandado por Eloy Alfaro, e outro mais moderado, encabeçado pelo político de Guayaquil Pedro Carbo e mais tarde por Leonidas Plaza, que uniu os interesses dos comerciantes da costa com os dos fazendeiros da serra. Assassinado Alfaro, o sistema político, econômico e social estabelecido pelos liberais comandados por Plaza governou vários lustros, baseado na fraude eleitoral e na dominação dos bancos e de certos grupos poderosos. Isso coincidiu com um período de grande crescimento das exportações do cacau, muito apreciado nos Estados Unidos. Criou-se, assim, uma classe exportadora rica, que vivia no exterior. A oposição, composta pelos conservadores e pelo recém-fundado Partido Socialista, só podia tentar intervir com candidatos ou promover tumultos. Em 1822 aconteceu em Guayaquil um massacre de trabalhadores que protestavam pelas condições de vida e de trabalho. Essa tragédia é mostrada no romance social Las Cruces sobre el Agua, de Joaquín Gallegos Lara.

A Revolução Juliana

A situação social e política do país só é modificada com a Revolução Juliana de 1925, em que um grupo de oficiais jovens do Exército instaura uma ditadura coletiva e depois entrega o comando ao dr. Isidro Ayora, ilustre médico que é o grande reorganizador da república. Isidro Ayora ordena as finanças, cria o Banco Central, o instituto de previdência social e as instituições de controle do gastos público e de bancos. Com ele termina a dominação de alguns bancos privados que chegavam a emitir moeda e tinham um poder desmesurado sobre assuntos públicos.

O fim do governo de Ayora traz uma fase de instabilidade e governos de curta duração. Talvez o erro de Ayora tenha sido não prever um sistema político de eleições e sucessão pragmático que desse estabilidade ao país. Chegou então uma época de defasagem social motivada pela depressão econômica de 1929 (a quebra da Bolsa de Nova York), o fim da grande exportação de cacau (causado por uma praga) e as tentativas, muitas vezes fracassadas, dos conservadores de voltar ao poder e dos socialistas de tomá-lo dos liberais. O único governo de importância é o do General Alberto Enríquez, que dura pouco tempo (apenas um ano), mas, com o assessoramento de intelectuais e professores, consegue ditar o Código do Trabalho e outras leis de grande conteúdo social.

Até 1930 a situação social, a difusão de novas idéias, a relegada condição dos indígenas e os escritos de alguns ensaístas (Pío Jamarillo Alvarado, Isidro Ayora Cueva (1879-1978) Benjamín Carrión) produzem uma nova literatura (romance, conto, novela) de denúncia e protesto social. Aparece então toda uma geração de narradores de alto valor: José de al Cuadra, Demetrio Aquilera Malta, Jorge Icaza, Benítez Vinueza, Enrique Gil Gilbert, Alfredo Pareja, Joaquín Gallegos Lara, Adalberto Ortiz, Angel Felicísimo Rojas, Eduardo Mora Moreno, Humberto Salvador, entre muitos outros. Angel F. Rojas produz quem sabe o melhor romance equatoriano: El Éxodo de Yangana. Situa-se à parte, mas é digna de menção, a obra do escritor Pablo Palacio, que cria relatos subjetivos, psicológicos, de tom kafkiano. Originalíssimo, desconcertante, de humor ácido, Pablo Palacio é uma figura única na literatura da América latina. Publicou Un Hombre Muerto a Puntapiés, Débora (1927), Vida de Ahorcado (1932), Ensayo sobre la palavra Verdad (1937) e Ensayo sobre la Palavra Realidad (1938).

A “Gloriosa” e o Velasquismo Os anos de 1940 a 1944 são marcados por fatos funestos. Um governo oligárquico e ineficiente, nascido de uma fraude eleitoral, o do liberal Carlos Arroyo del Río, exerceu a tirania sustentado por seus carabineiros, enquanto forças peruanas iam ocupando o território amazônico disputado pelos dois países. A situação desembocou numa guerra entre Equador e Peru (julho de 1941) e na ocupação da província equatoriana de El Oro e outros lugares por tropas peruanas. O governo foi incapaz de organizar a defesa nacional e, como eram tempos da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos exerceram pressão para que o Equador firmasse um tratado de paz, porque todo o continente devia enfrentar unido a ameaça nazi-nipônica. Em janeiro de 1942 se firmou o Tratado do Rio, prejudicial ao Equador. Apesar disso o governo de Arroyo sobreviveu até maio de 1944, quando uma revolução popular organizada pela coalizão Aliança Democrática Equatoriana, com a ajuda de alguns militares, o derrubou e dissolveu o Corpo de Carabineiros. Logo alguns dos dirigentes da ADE entregaram o comando a José María Velasco Ibarra, destacado intelectual e orador que já havia ocupado antes, por pouco tempo, a presidência. Assim começou a fase do “velasquismo”, um caudilhismo e populismo que paulatinamente foi erodindo e destruindo os três partidos políticos principais: o conservador, o liberal e o socialista.

Velasco Ibarra (1893-1979), uma das principais figuras políticas do Equador no século XX, foi cinco vezes presidente da república. Destacado intelectual, mas também notável demagogo, era um fogoso orador, com imenso poder sobre as multidões, e ao mesmo tempo um notável ensaísta filosófico, que publicou numerosos livros. Ideologicamente se inclinou mais para a direita. Velasco Ibarra era um personagem paradoxal e contraditório, a um só tempo caudilho de massas e homem solitário e refinado.

Velasco Ibarra acabou com o sistema de fraudes que particavam alguns grupos liberais, estabeleceu a liberdade de educação, insistiu em escolas e estradas, fortaleceu as forças armadas, mas enfraqueceu os partidos políticos e a corrupção cresceu por toda parte. E essas foram as características de todos os governos do velasquismo.

Artes e Letras

A tradiçâo cultural da Escola Quitenha, identidade do Equador, continua no tempo e na a primeira parte do século XX existem importantes pintores como Camilo Egas, Pedro León, Victor Mideros y Diógenes Paredes. Também a Música brilhou com compositores : Salvador Bustamante, Francisco Salgado, Sixto María Duran, Luis Humberto Salgado, Segundo Cueva Celi, Enrique Espin Yépez.

Ao se iniciar a segunda administração de Velasco, fundou-se a Casa da Cultura Equatoriana (1944), instituição que logo foi copiada em muitos Benjamín Carríon países hispânicos. A criação dessa importante entidade equatoriana foi obra do escritor Benjamín Carrión Mora (1897-1979) e de um destacado grupo de intelectuais de todas as tendências (a casa se caracterizou por sua amplitude ecumênica). Benjamín Carrión foi o grande promotor da cultura do Equador. Promoveu os novos escritores e deu a conhecer pintores como Eduardo Kingman, Oswaldo Guayasamín e Oswaldo Munõz Mariño. Obteve os prêmios Bento Juárez, do México, e Eugenio Espejo, do Equador. Suas principais obras são: Los Creadores de la Nueva América (1928), Mapa de América (1930), Nuevo Relato Ecuatoriano, Atahualpa (1934), Cartas al Ecuador (1943), San Miguel de Unamuno, Santa Gabriela Mistral. Foi precisamente Benjamín Carrión que traçou o projeto do que deve ser o Equador, o que se chamava de “a teoria da pequena pátria”. Segundo essa teoria o povo equatoriano não deve pretender grandeza militar ou predomínio econômico, senão a grandeza de espírito, a grandeza da cultura. O Equador com vocação para a liberdade, para as letras e as artes, o Equador de Montalvo e da Escola Quitenha de pintura e escultura, é o que tem de se refazer e levantar.

Vale também citar aqui os grandes poetas da época, César Dávila (1918-1967), que clamou pelo destino dos indígenas, explorou a filosofia oriental e resgatou a poesias das coisas cotidianas, e Jorge Carrera Andrade (1902-1978), quem sabe o mais universal dos poetas equatorianos, duas figuras de proa da América e do século XX. No terreno da literatura é necessário mencionar também outros nomes, tais como os de Miguel Angel Zambrano, Gustavo Alfredo Jácome, Miguel Angel León e Alejandro Carrión, entre outros.

O Período de Estabilidade 1948-1960

Entre 1948 e 1960 o Equador vive um período de estabilidade constitucional e econômica sem precedentes em sua história. Em grande parte isso foi o trabalho de dois homens notáveis: Galo Plaza Lasso e Camilo Ponce Enríquez.

Galo Plaza Lasso, com seu caráter equilibrado e sensato e seu grande sentido de pragmatismo, desenvolveu o cultivo técnico da banana até converter o Equador, em apenas dois anos, no primeiro exportador mundial dessa fruta. O Equador era então um país fundamentalmente agrário e Plaza desenvolveu em sua gestão a idéia de melhorar tecnicamente a agricultura e a criação de gado. Importou raças de qualidade e promoveu a produção de laticínios. Fundou, ademais, colégios bilíngües e deu grande estabilidade e ordem às finanças. Logo após Plaza voltou a eleger-se o caudilho José María Velasco Ibarra, mas nesse período (o único que ele terminou) seu mandato foi equilibrado pela presença no Gabinete de Camilo Ponce Enríquez, notável líder da direita e do partido que fundou, o Social Cristão, inspirado na doutrina social da Igreja Católica. À presidência de Velasco seguiu-se a do próprio Ponce Enríquez, que competiu em renhida eleição com o candidato de centro-esquerda Raul Clemente Huerta. Ponce Enríquez foi um grande construtor: fez numerosos aeroportos, edifícios públicos, hospitais, hotéis, pontes importantes, como a que une Guayaquil ao interior do país.

Quarta Presidência de Velasco e a Junta Militar

Em 1960 novamente José María Velasco Ibarra ganhou as eleições, mas dessa vez, sem apoio de Ponce e outros ministros moderados, uma camarilha corrupta tomou conta do poder. O Galo Plaza Lasso (1906-1987) presidente proclamou a nulidade do protocolo de limites com o Peru e deu forças ao nacionalismo. Dominado pelos agroexportadores, desvalorizou a moeda, a vida encareceu e criou-se um clima de corrupção e agitação social. Assumiu então o Vice- Presidente Carlos Julio Arosemena, que quis dar a seu governo uma tendência de esquerda. Arosemena, homem de muito talento e cultura, desperdiçou totalmente sua oportunidade e não fez obra de grande relevo. Rapidamente surgiu um movimento anticomunista e anticastrista que se aproveitou das debilidades de caráter do Presidente e afinal o derrubou para instalar uma ditadura militar, sustentada pelos Estados Unidos. A junta de governo (1963-1966) teve papel medíocre. Realizou uma reforma agrária malfeita (cópia de normas alheias à realidade local), que diminuiu a produção agrícola (tanto que o país teve de começar a importar alguns alimentos), e reprimiu a esquerda marxista e os partidos políticos em geral. Vários dirigentes políticos de distintas tendências foram expatriados.

Felizmente o clamor popular e diversos fatos circunstanciais (como a invasão da Universidade de Quito) forçaram os militares a convocar uma assembléia de notáveis que entregou o poder a um presidente interino(1966), o distinto cidadão don Clemente Yerovi Indaburu, que em menos de um ano reorganizou as finanças e a administração pública, restabeleceu a ordem e convocou uma Assembléia Constituinte. Após o período interinado realizaram-se novas eleições e outra vez foi eleito, pela quinta vez, José María Velasco Ibarra. Essa foi a última presidência do notável político.

A Ditadura Militar

Em 1972 as Forças Armadas, encabeçadas pelo general Guillermo Rodrigues Lara, derrotaram o Presidente Velasco Ibarra e instauraram uma ditadura “nacionalista revolucionária”. Era uma época em que se generalizavam as ditaduras na América Latina. Por sorte do Equador, foi uma ditadura progressista e não se cometeram excessos nem violações dos direitos humanos. Nessa época começou no Equador a exploração de petróleo em grande escala, e de fato, para o bem ou para o mal, mudou a vida dos equatorianos para sempre. Foi de muito mau presságio a ridícula procissão “cívica” com que foi recebido em Quito o primeiro barril de petróleo, como se se tratasse de um herói. Assim pela primeira vez na história do Equador, o Governo teve grandes somas em dinheiro (o preço do barril de petróleo chegou a 40 dólares). O Governo pagou a velha dívida da independência, construiu uma série de edifícios públicos e colégios, aumentou a burocracia, edificou estradas, pontes e represas e deu uma importância exagerada a economistas e tecnocratas. Foi uma lástima que tantos recursos se utilizassem, quase sempre, sem preocupações com o futuro.

O regime de Rodrigues Lara durou quatro anos, ao cabo dos quais sucumbiu a uma segunda tentativa de golpe de militares desleais. Um almirante e dois generais formaram um governo que carecia de qualquer justificativa histórica. O cérebro desse triunvirato era o general Durán Arcentales, que não se distinguiu por um correto comportamento no manejo da coisa pública. O novo triunvirato cometeu violações dos direitos humanos (entre elas, o traiçoeiro assassinato do dirigente liberal alfarista Abdón Calderón Muñoz) e expulsou os dirigentes dos partidos políticos.

Afinal, a pressão política e popular conseguiu que os componentes do triunvirato aceitassem realizar um plebiscito para aprovar uma constituição, feita por uma comissão medíocre, e se convocaram eleições. As forças armadas vetaram a candidatura de Asaad Bucaram e foi eleito em seu lugar, como presidente da República, Jaime Roldós Aquilera, que ficou no poder somente um ano, falecendo em um acidente de avião. Esse foi o começo de uma longa fase de decadência econômica e política.

Governos Constitucionais

Roldós foi substituído por Oswaldo Hurtado, que, ainda que de filiação democrata-cristã, governou com os banqueiros e entregou a alfândega ao populismo. Em seguida, ascendeu León Febres Cordero, da direita socialcristã. O governo de Febres Cordero enfrentou duas circunstâncias desfavoráveis: o baixo preço do petróleo, principal produto de exportação, e um terremoto que causou graves danos. Reprimiu rapidamente um incipiente movimento de guerrilha marxista e enfrentou uma rebelião militar. Seu sucessor, o socialdemocrata Rodrigo Borja, foi eleito com notável maioria e o povo lhe deu o controle do Congresso, mas não contou com suficientes planos para executar. Só no final de seu mandato realizou obras de aterramento em parte das favelas de Guayaquil, diques na cidade de Babahoyo e contratou a restauração e modernização da ferrovia, mas esse projeto foi lançado por terra no governo seguinte, pelos empresários que não queriam perder suas influências e seus monopólios. Nada obstante, o governo de Borja foi o governo honesto dessa época. O presidente se deu ao luxo de ir a pé ao Congresso ao entregar o poder, sob o aplauso de seus concidadãos.

Populismo instável : o tempo desperdiçado

Dai em diante foi um a situação do pais piorou. Borja foi sucedido pelo presidente onservador Sixto Duran Ballem. A primeira parte de sua administração foi positiva para o desenvolvimento da economia, mas lamentavelmente sobreveio um período de corrupção e se reduziu o poder da superintendência estatal para controlar as operações bancárias. Durante o governo de Durán Ballén produziram-se alguns incidentes fronteiriços que terminaram em guerra não declarada e localizada entre o Equador e o Peru. A resistência equatoriana e o domínio aéreo que o Equador conseguiu forçaram o Peru a ir à mesa de negociações. Sob os auspícios dos quatro países fiadores do Protocolo do Rio de Janeiro (de 1941) – Argentina, Brasil, Chile e Estados Unidos –, foram selados vários acordos de paz, de limites, comércio, navegação e integração, firmados em Brasília em 1998. Equador e Peru conseguiram transformar uma grande disputa territorial num programa de desenvolvimento fronteiriço binacional. Cabe assinalar que os gastos do conflito mencionado afetaram notavelmente a economia do país.

Logo o populismo e a demagogia impuseram o governo caótico de Adbalá Bucaram. A corrupção administrativa e o desprestigio do governo provocaram a reação de todas as forças políticas e da cidadania. Bucaram ficou só seis meses no poder. Mercê de uma obscura conjunção de forças do Congresso e alguns comandantes militares, entregouse o poder a Fabián Alarcón, presidente do Legislativo. Este fez um governo controverso que durou um ano. Convocadas as eleições gerais, proclamou-se vencedor o democrata-cristão Jamil Mahuad. O presidente, como havia sido eleito com a cumplicidade de alguns bancos, sacrificou os recursos do Estado para salvar os interesses de banqueiros que haviam realizado uma série de empréstimos e operações fraudulentas. Como resultado dessas operações imorais veio uma crise monetária e bancária. Inúmeros equatorianos perderam dinheiro que tinham em bancos, e para estabilizar a economia o Governo decretou (de forma inconstitucional) a troca do sucre pelo dólar americano como moeda do Equador, a uma taxa desmesurada. Mahuad teve que fugir e o substituiu seu vicepresidente, Gustavo Noboa. Durante a presidência de Noboa construiu-se uma importante rede de estradas. A crise econômica desses anos provocou a emigração de grande número de equatorianos (possivelmente mais de um milhão) para o exterior.

Posteriormente, num processo com excessivo número de candidatos, foi eleito presidente o coronel Lucio Gutiérrez, que participou na deposição de Mahuad. Em verdade, era representante de uma minoria. Quando o governo perdeu o apoio do setor indígena (depois de seis meses) entrou numa fase de nepotismo e decomposição. O clamor do povo de Quito, que saiu espontaneamente às ruas, sem a intervenção de dirigentes políticos, retirou Gutiérrez do poder. Assumiu o vice-presidente, dr. Alfredo Palacio.

No final do ano de 2006 as eleições produziram uma redistribuição de forças políticas e se elegeu novo presidente da República e novo Congresso. Foi conduzido à presidência o economista Rafael Correa, que propôs realizar reformas radicais e convocar uma assembléia nacional constituinte.

O Equador tem imensos recursos naturais, uma rica geografia e uma população inteligente. O que necessita é educação, ordem e esforço. A esperança não morre.

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